sábado, 13 de março de 2010

Maria: mãe de Jesus, irmã da humanidade

Em um país carente de pai, católicos se agarram à imagem de Maria-Mãe da Humanidade e evangélicos a desprezam, inclusive como importante personagem bíblica

O Brasil é um País de “filhos da mãe”. Retiramos essa afirmação da própria história brasileira em que não raras vezes vemos registrado que, durante o período de escravidão, os senhores de escravos compravam um grande número de negros e recebiam negras, como espécie de “agrado” sexual, um brinde pelas boas compras. Para o teólogo, mestre em ciência da religião e pastor, Leandro Seawright, essa carência de imagem paterna advém da sociedade tradicional brasileira, pois desde o período da escravidão a maternidade foi o que deu estrutura a essa sociedade, uma vez que os pais brasileiros não assumiram seus filhos de maneira a dignifica-los. “Por isso, tanto as mães – marginalizadas por uma cultura abruptamente masculina – quanto os filhos, foram prejudicados na maneira com a qual se perceberam ao longo do tempo, ou como filhos sem pais, ou como mães carentes de uma outra inserção social”, explica Seawright. Em suma, toda essa formação cultural brasileira propiciou a formação da mulher no cenário brasileiro: a dona de casa, meio católica meio espírita, meio branca meio negra, meio conservadora meio sensual. E isso também redimensionou a maternidade, tanto no tocante a religião, quanto a sociedade como um todo. “Tal como o colonizador (de tradição cristã) observava as mulheres nativas e posteriormente as escravas (de tradição afro), assim a sociedade criou um processo de maternização e de paulatina desmaternização”, afirma o teólogo.

E é nesse contexto que suge Maria, a imagem católica de mãe da humanidade e como ícone que preconiza a carência paterna brasileira. Assim, podemos pensar tanto na maria da narrativa bíblica e nas Marias adaptadas para atender a identificação que cada região católica faz dela. Para Seawright, Maria passou por um processo de mutações, assumindo diversos tipos de rostos (da imagem branca e barroca à imagem da negra escrava). “Do belo rosto sofrível de Fátima à desensualização da Aparecida como depreciação da imagem negra. A Maria da tradição católica teve sua imagem alterada e negociada nas diversas partes do mundo, sofrendo uma significativa alteração”, compara.

A Maria bíblica, porém, foi um exemplo de fé, de obediência e de amor. Sem pretensões sacro-santas, sem obstinações do adestramento religioso medieval. Essa mutação pela qual o cristianismo católico fundou Maria não acontece do ponto de vista bíblico, mas a multiaplicação da imagem de Maria teve sucesso na culura brasileira por sermos todos “filhos da(s) mãe(s)”.

Maria, mãe de Jesus – mas Maria foi mulher. E no ápice de sua experiência natural – e sobrenatural – foi mãe e educadora. E, para muitos, é assim que Maria deve ser vista. Para o pastor Leandro Seawright, somos libertos da idolatria mariana e precisamos ser libertos do preconceito de se pensar Maria como um exemplo humano e mortal de mãe e mulher. “O exemplo de Maria é tão humanamente marcante que alguns sentem medo de diviniza-la. Precisamos encara-la como um modelo de serva- pecadora – do Senhor, por sua atuação na vida dos filhos e por seu papel no decurso da história da Igreja Antiga”, pontua.

Para Mauro Clark, pastor e autor do livro Redescobrindo Maria (editora Mundo Cristão), e fundador do minsitério Falando de Cristo - www.falandodecristo.com - Maria é uma figura tão forte na mente dos católicos que, quando algum se converte, não sabe bem como tratá-la. “Se a exalta demais, poderá dar a entender que continua afinado com o romanismo que, na prática, a considera uma deusa.Se fala de algum defeito, dará a impressão de que não respeita a mãe de Jesus. Na dúvida, fica quieto, achando mais prudente não tocar nesse delicado tabu”, afirma o autor.

Tabu ou não, o assunto tem levantado discussões no mundo cristão – evangélico e católico – mas o evangélico tem se sentido perdido nessa questão. Pouco se fala, em cultos e palestras sobre a figura e exemplo de Maria. Poucos são os preletores – pregadores, pastores, conferencistas – que ousam trocar Ana (a persistente mãe de Samuel) ou Sara (a grande matriarca de Israel) por Maria. Seawright explica isso como um sentimento anticatólico dos protestantes brasileiros que, desde os primórdios, tem abatalhado por um lugar de sustentação na estrutura religiosa nacional. “Nem Sara, nem Ana são fundamentais no catolicismo romano, por isso a facilidade [do evangélico] – no trato com estas histórias”, explica.

Mas o que faz de Maria toda essa celêuma em torno de seu nome? Para o católico, santa. Para o evangélico, nada. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra, deve-se levantar algumas questões sobre essa quase indecifrável personagem.

Para a escritora, conferencista e vice-presidente da Convenção Batista Nacional, Nancy Dusilek, a mulher que deu à luz o Cristo foi uma mulher corajosa, fiel e visionária, pois aceitou ao maior desafio que qualquer outra mulher teve oportunidade. “Não me parece uma pessoa sem expressão, sem voz, sem vez e totalmente submissa ao sistema. Se assim fosse não teria dito sim ao anjo, diante de uma situação tão constrangedora. Ela poderia ter recusado a missão, mas sua visão do desafio foi além”, vislumbra.

Já Mauro Clark, põe uma pimenta nessa discussão e afirma que Maria foi escolhida a mãe do redentor pela graça de Deus. “Talvez isso choque alguns, mas para ser bem exato, Maria não fez nada. Ela foi escolhidapela graça de Deus. Claro que ela tinha nobres virtudes e era uma jovem submissa a Deus. Mas esses não foram os motivos de sua escolha. Primeiro, porque assim a graça de Deus não teria sido graça. Segundo, porque muitas outras mulheres em Israel também eram piedosas”, explica.

Mas escritor e pastor Mauro Clark aconselha a enaltecer Maria como personagem bíblica utilizada como ferramenta na mão de Deus. “Temos que considera-la uma irmã em Cristo – muito especial, é verdade – mas tão dependente da misericórdia de Deus quanto qualquer um de nós. Além disso, temos de tentar imita-la nas virtudes que a Bíblia registrou. Aliás, como fazemos com qualquer personagem bíblico fiel”, conclui.

Filhos do Pai – talvez a adoração à Maria “à brasileira” tenha se dado pela carência de pai que o brasileiro tenha sido, historicamente, submetido. Para o pastor e teólogo Leandro Seawright, os evangélicos se consideram filhos do Pai, por causa da ausência de paternidade na cultura brasileira. “Os católicos preferem se identificar com Maria, enquanto Mãe de Deus, buscando o alento amoroso da maternidade”, explica.

Mas nessa era – nuclear, biológica, humanística e pós-moderna – a teologia remete o homem a pensar urgentemente em novos modelos deDeus. A teologia brasileira necessita de novas metáforas e, então, surge a questão: por que não pensar em Deus como mãe?

Para Seawright, a fundamentação bíblica para essa afirmação é totalmente plausível e se encontra em Mateus 23:7. “O Deus da Bíblia não tem forma antropomórfica e é assexuado e, na verdade, o Deus da Bíblia pode ser pensado como pai e mãe”, acentua.

“Sei que sou amado por meu pai e por minha mãe, mas de maneiras ou com expressões diferentes. Quanto a Deus, creio na completude de suas expressões racionais/sentimentais. Posso entendê-lo como quem ama paternalmente ou maternalmente”, explica.

Neste sentido, pode-se pensar num amor materno de Deus no interior das mães brasileiras e no papel libertador do verdadeiro cristianismo. Cabe-nos mais do que libertação econômica: é preciso pensar na luta de classes, na luta dos gêneros (e não entre os gêneros), na luta racial para a ascenção do verdadeiro ministério maternal.

E foi essa toda a temática de ministério e vida de Cristo. No rosto masculino de Cristo, existe um olhar mais profundo. No Rosto de Cristo estão as massas marginalizadas, estão as mulheres que sofrem diversos tipos de preconceitos e violências, estão os pobres e pequeninos. O rosto de Cristo reflete um amor paterno e materno, pois traz completude libertária.

Regina de Oliveira

FONTE:
Revista Eclésia

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4 comentários :

  1. Olá,

    Gostei de ver essa matéria no seu blog. Por favor, entre no meu blog:
    www.historiaeteologia.blogspot.com

    Abraços,
    Leandro Seawright Alonso

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  2. Enquanto vocês mantiverem essa visão distorcida de nosso entendimentos católicos, em relação a Maria e, por isso, continuarem a confundirem, talvez propositadamente, a seus fanáticos literais seguidores, vossas seitas permanecerão caminhando para a escuridão.
    Irmãos, virem para a Luz e se convertam à verdadeira Igreja de Cristo.
    A Paz!

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  3. Idolatria católica!
    Quanta ignorancia!
    Um pouco de conhecimento os faria mais cristãos.

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  4. é um pouco dificil entender e chamar certos "irmãos em cristo" de cristão, pelo fato de trazerem um entendimento errado do catolicismo, e não conhecerem a história da igreja,falam por falta de conhecimento, em nome de Jesus chegarei a ver o respeito entre as igrejas,onde prevalecerá aquele que é digno de toda adoração, Senhor Jesus.

    Um irmão católico

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