domingo, 20 de outubro de 2013

O peso da competência (Eduardo Aquino)

Lembro como se fosse hoje de uma palestra que ministrei num famoso e caro colégio de classe média alta de BH, e o assunto acabou se enveredando para o futuro dos alunos, suas expectativas, qual carreira sonhavam, seus sonhos e desejos, quando, para minha surpresa, um dos alunos levantou a mão e disse com naturalidade surpreendente: “Quero me dar bem, ter grana, não precisar estudar ou trabalhar, não ter pais enchendo o saco, quero muita balada, tomar todas, ter muita mulher, acordar tarde... Só isso!”. Dois minutos de aplausos e risos, fiquei entre chocado, sem graça, paralisado, mas consegui aterrissar e tratei de dizer: “Aí galera, vamos aplaudir o nosso herói, o rei da cocada preta!”. Todos aplaudiram e ele se encolheu. Ótimo, pois, a partir desse evento, o tema que era sobre drogas, sexualidade e bullying virou para “o que eu quero ser quando crescer”.

Aproveitando o tema de como se dar bem, sem esforço, e viver para nada fazer, escravo dos vícios e sem alma, provoquei a turma. Disse que se uma pessoa do “mensalão” oferecesse R$ 1 milhão, quem ali venderia seu CPF para os corruptos que estavam desviando verba da educação pública, merenda escolar, medicação para o SUS etc? Para a minha tristeza, quase 70% da turma se levantou e foi à frente. Simulei, então, uma entrevista com aqueles adolescentes entre 15 e 17 anos e questionei porque se corromperiam sabendo que prejudicariam milhões de pessoas de baixa condição social. Respostas ouvidas: “Eu compraria um carro, não precisava estudar, me daria bem”; “Se todo mundo rouba e se dá bem, porque eu tenho de ralar?”; “Eu não estou a fim de estudar e trabalhar para ganhar miséria enquanto os políticos e empresários se dão bem com a grana do governo”.

Durma-se com um barulho desses! Ânimos acalmados e lembrei que a competência, o dom e o talento eram os caminhos mais longos, cheios de armadilhas, dificuldades, mas o único que conduz a uma existência plena e que ter paz de espírito e serenidade era igual àquela propaganda de cartão: “não tem preço!”. Procurei mostrar a expressão vender a alma para o diabo e ilustrei com exemplos de quem foi pego, e como as pessoas que embarcam em caminhos sombrios acabam sendo pegos pela rede da promiscuidade: bebidas, sexo, drogas, interesseiros, chantagistas, e essa rede vai crescendo até ser insustentável.

Falei da questão da fé e religiosidade, pois, após a vida material, ainda teremos a consciência e toda eternidade e haveria uma justiça divina, mas a turma não se mexeu. Foi então que me veio à mente perguntar se gostariam de ser famosos. Claro que toda a galera queria. Foi então que pedi que escrevessem o nome de três pessoas que eles achavam que eram as mais famosas. Deu de tudo, de jogador de futebol a atores de TV, passando por cientistas e presidentes dos EUA. Escolhi, então, Einstein, Messi, Beyoncé e Steve Jobs. Pois bem, então, eles têm grana? E a fama veio por qual motivo? Tiveram que estudar, trabalhar pesado todo dia ou roubaram, ficaram “morgando” preguiçosos em frente a uma tela de celular ou computador? E os grandes inventores e cientistas que, na época, não tinha sequer eletricidade ou tecnologia de ponta? Puxaram o saco de alguém, corromperam ou foram corrompidos? Então, dei o golpe final: um dia gostaria de saber que alguém, naquele colégio, fez a diferença, deixou um legado para seus filhos e netos. Pois Deus dá a cada um de nós dons e qualidades que mesmo que ainda não percebamos, mesmo que estejamos fora do nosso caminho, todos nós temos a vida como oportunidade para dar um belo sentido à vida. E recitei um poema de Fernando Pessoa. Como foi legal ver aquela turma aplaudindo de pé, pedindo autógrafo nos livros que doei. E, após um tempo, recebi mensagens deles ou de seus pais agradecendo o evento. Dito tudo isso, vale a pena ler um artigo de um colunista da “Veja”, chamado Gustavo Yochep intitulado “Devo criar meu filho para ser ético?”.

Pois a geração atual descrita como egoísta, narcisista, indiferente, viciada em tela, preguiçosa, anda carente de líderes, heróis como um dia nossos pais pareciam ser, precisam de referência, de boas notícias, de ter mais fé, desde a religião independente de qual for, até a fé nas instituições, nos adultos que os rodeia, em casa, na escola, no convívio social. Esses jovens querem crer em algo, querem seguir e multiplicar bons exemplos. Desejam ter um futuro, se entusiasmar por alguma bandeira. Esses jovens, no fundo, são órfãos de uma sociedade em desalinho, onde velhos preconceitos, leis, normas, moral e ética são assinados a cada dia por nós, os adultos, que fomos perdendo a capacidade de sonhar e lutar contra os péssimos líderes políticos.

E dá-lhe “blackblocs”, com seus discursos vazios, seus quebra-quebras, suas violências como prazer e revolta e, no entanto, destroem a grande maioria que, quando quis deixar de ser silenciosa e em junho foi para às ruas, agora se recolhe, prisioneira e encurralada, entre os “ninjas do mal”, infiltrados por interesses tão escuros quanto as suas vestes e a polícia violenta e despreparada, enquanto os políticos riem de nossas caras nos castelos em Brasília. Ciclo vicioso perverso, mas minha esperança de um grande “bug”, que nos desconecte do vício das máquinas e revertam a trajetória da humanidade, de desigualdades, de dependência tecnológica, de insatisfação generalizada, de falência afetiva e das relações humanas, para uma era de menos consumismo, materialidade e, enfim, o resgate da fraternidade, do amor, da serenidade.

A nós cabe semear o altruísmo, a generosidade, doarmos nosso afeto, sabedoria e bons exemplos para filhos e netos. E convencer que vale a pena ser competente, empenhado, sonhador, ético e justo.


Eduardo Aquino (Jornal Super)


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